Em 2026, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo chega à sua 30ª edição. Trinta anos ocupando a Avenida Paulista. Trinta anos de luta, afeto, corpo na rua, beijo sem pedir licença e gente dizendo em voz alta: nós existimos.

A edição deste ano está marcada para 7 de junho de 2026, na Avenida Paulista, a partir das 10h, segundo a agenda oficial da Parada SP. O tema também não poderia ser mais direto: "A rua convoca, a urna confirma". Porque, sim, orgulho também é política. E quem ainda acha que direitos caem do céu provavelmente nunca precisou lutar por nenhum.

Mas, como toda vez que a comunidade LGBTQIA+ ocupa espaço demais para o gosto da turma do atraso, veio a tentativa de controle. A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, em primeira votação, um projeto de lei do vereador Rubinho Nunes que pretende impedir a participação de crianças e adolescentes em eventos que façam alusão ou fomentem práticas LGBTQIA+, especialmente a Parada do Orgulho LGBTQIA+. O texto ainda tenta empurrar esses eventos para espaços fechados e proibir a ocupação de vias públicas. Para virar lei, ainda precisa passar por uma segunda votação e seguir para sanção ou veto do prefeito.

A justificativa? A velha fantasia moralista de sempre: "proteger as crianças".

Mas proteger de quem, exatamente?

Porque quando o assunto é violência sexual contra crianças e adolescentes, os dados conhecidos não apontam para a Parada LGBT+ como ameaça. O Disque 100 registrou, só nos quatro primeiros meses de 2023, 9,5 mil denúncias e 17,5 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes. Os principais cenários aparecem dentro de casas: a casa da vítima, do suspeito ou de familiares.

E quando olhamos para instituições religiosas, o silêncio também não combina com esse discurso de "proteção". Uma reportagem da Agência Pública mostrou que, entre 2016 e 2018, o Disque 100 registrou 167 denúncias de violação sexual praticada por líderes religiosos. A mesma reportagem aponta que igrejas e templos estavam entre os locais onde mais teriam ocorrido violações no conjunto analisado.

Então vamos combinar uma coisa: se a preocupação fosse realmente com criança, a conversa seria sobre rede de proteção, educação sexual, denúncia, acolhimento, fiscalização, família, escola, igreja, internet e ambientes onde a violência de fato aparece nos dados. Mas não. O alvo escolhido é a Parada.

Por quê?

Porque não é sobre proteger criança. É sobre controlar narrativa.

É sobre dizer que beijo gay em público é ameaça. Que bandeira colorida é perigo. Que uma criança ver dois homens se beijando é mais grave do que crescer ouvindo que aquilo é pecado, doença, vergonha ou "influência".

E aí vem aquela pergunta clássica, repetida há décadas por quem acha que o mundo deve se organizar ao redor do próprio desconforto:

"Mas o que eu vou dizer para o meu filho se ele vir dois homens se beijando?"

Diga a verdade.

Diga que, depois de muitos anos de luta, algumas pessoas finalmente podem demonstrar amor, carinho e afeto sem se esconder. Diga que existem famílias diferentes, amores diferentes, corpos diferentes e vidas diferentes. Diga que respeito não arranca pedaço de ninguém.

Ver dois homens se beijando não transforma uma criança em gay.

Mas esconder a existência de pessoas LGBTQIA+ pode transformar uma criança em alguém ignorante, preconceituoso ou, pior, em uma pessoa LGBTQIA+ incapaz de se aceitar.

E esse é exatamente o projeto.

Não querem só tirar crianças da Parada. Querem tirar a Parada da rua. Querem tirar a comunidade LGBTQIA+ da Avenida Paulista. Querem tirar a imagem da diversidade do cotidiano da cidade. Querem devolver tudo para o armário, para o segredo, para o medo, para o "tudo bem ser gay, mas não precisa mostrar".

Precisa, sim.

A Parada não é só festa. Nunca foi só festa.

É memória. É protesto. É homenagem a quem veio antes. É grito por quem ainda não consegue gritar. É dinheiro circulando na cidade, é turismo, é cultura, é ocupação política, é afeto público em um país que ainda mata, agride, humilha e tenta silenciar pessoas LGBTQIA+ todos os dias.

A tentativa de proibir a Parada na Paulista também revela outra coisa: o problema não é criança. O problema é visibilidade.

Porque se a questão fosse apenas "trânsito", "incômodo" ou "constrangimento", a mesma régua seria aplicada a outros grandes eventos religiosos, esportivos e políticos que ocupam as ruas da cidade. Mas, curiosamente, o incômodo parece sempre crescer quando a multidão é colorida demais, livre demais, viada demais.

Ô bicha, que coincidência, né?

A verdade é simples: criança não precisa ser protegida da diversidade. Criança precisa ser protegida da violência, do abuso, da negligência, da mentira e do preconceito.

E preconceito também se ensina.

Ensina-se quando se apaga.
Ensina-se quando se proíbe.
Ensina-se quando se diz que certas pessoas só podem existir longe dos olhos dos outros.

Por isso a Parada na rua importa.

Porque uma criança que vê diversidade pode crescer sabendo que existe mais de um jeito de amar, de viver, de formar família, de ser feliz. E uma criança LGBTQIA+ que vê aquilo talvez entenda, pela primeira vez, que não está sozinha.

Errado é quem quer transformar orgulho em crime.

Errado é quem usa criança como escudo para censurar adulto.

Errado é quem finge preocupação enquanto espalha medo.

A Parada de São Paulo virou referência mundial porque muita gente insistiu em existir quando queriam que a gente sumisse. E é exatamente por isso que querem nos tirar da Paulista.

Mas a rua também é nossa.

E enquanto tiver gente tentando nos empurrar de volta para o armário, vai ter gente dizendo, vestindo, gritando e estampando:

Ô Bicha, a gente não vai voltar.