A música não me faz lembrar do passado. Ela me faz voltar para mim.
Outro dia me perguntaram por que eu gosto tanto de música.
A resposta parecia simples.
"Porque eu amo ouvir música."
Mas não era essa.
Demorei anos para entender.
A música nunca foi só música para mim.
Ela sempre foi uma máquina do tempo.
Quando toca When Love Takes Over, eu não ouço David Guetta e Kelly Rowland.
Eu volto para Lisboa, na minha primeira viagem para a Europa. Lembro da sensação de descobrir uma música antes de ela chegar ao Brasil. Daquele frio na barriga de quem estava vivendo algo novo.
Quando toca Bailando, eu não estou mais na sala de casa.
Estou em Alicante.
No La Beata.
Solteiro depois de cinco anos de relacionamento.
Apaixonado por vários boys ao mesmo tempo.
O cartão de crédito implorando por misericórdia.
A mala voltando cheia.
A cabeça cheia de histórias.
O coração completamente aberto para a vida.
Quando toca Wrecking Ball, eu lembro de um amor que acabou.
Quando toca Roar, eu lembro que sobrevivi a ele.
Cada música guarda uma versão de mim.
E, talvez por isso, eu as ouça tantas vezes.
Porque, no fundo, eu não estou procurando a música.
Estou procurando quem eu era quando ela tocava.
Esses dias alguns amigos disseram que gostam de me ver dançar porque eu "sinto a música".
Eles têm razão.
Eu sinto.
Porque eu não estou apenas acompanhando a batida.
Eu estou revisitando lugares, pessoas, viagens, amores e despedidas.
Estou voltando para mim.
Durante muito tempo achei que eu tinha ficado frio.
Que a vida, o trabalho, as cobranças e a necessidade de parecer sempre forte tinham levado embora uma parte importante de quem eu era.
Até perceber que ela nunca foi embora.
Ela só estava escondida debaixo de uma armadura.
Uma armadura que muita gente LGBTQIA+ conhece bem.
A gente aprende cedo a medir gestos.
A controlar a voz.
A esconder sentimentos.
A parecer forte.
A parecer sério.
A parecer que nada nos atinge.
Porque, muitas vezes, esse foi o jeito que encontramos de sobreviver.
O problema é que armaduras são ótimas para atravessar batalhas.
Mas péssimas para morar dentro delas.
Outro dia me lembrei de uma coisa.
Quando eu era criança, queria fazer dança.
Não aconteceu.
Naquela época, isso ainda era visto por muita gente como "coisa de viado".
Hoje eu não culpo meu pai. Ele também era filho do tempo dele. Inclusive, anos depois, foi ele quem me acolheu quando soube que eu era gay.
Mas, às vezes, fico imaginando como teria sido aquela vida.
Talvez eu nunca descubra.
O que eu descobri foi outra coisa.
Mesmo sem nunca ter sido bailarino, eu nunca deixei de dançar.
Cada vez que uma música me atravessa, aquele menino aparece de novo.
E talvez seja por isso que eu me emocione tanto.
Porque, por alguns minutos, eu deixo de ser só o profissional que resolve problemas, paga boletos e tenta dar conta de tudo.
Eu volto a ser alguém inteiro.
No fim das contas, acho que é isso que a música faz.
Ela não me leva para o passado.
Ela me leva de volta para casa.
E essa casa sou eu.
